Mensagem

Uma Viagem pela Alma de Portugal

Fernando Pessoa

Análise do Título da Obra

De "Portugal" a "Mensagem"

O título original da obra era simplesmente "Portugal". No entanto, Fernando Pessoa decidiu alterá-lo por sugestão de um amigo, Cunha Dias, que considerou o nome demasiado comum para a época. O novo título, "Mensagem", revelou-se uma escolha profética, carregada de significados ocultos e simbolismo esotérico que definem a própria essência da obra.

"A palavra 'Mensagem' não foi escolhida ao acaso. Pessoa escondeu nela uma frase latina de Virgílio que resume toda a filosofia da obra." — Fernando Pessoa

Os Segredos Escondidos no Título

"Mens Agitat Molem"

MENSagitatmolEM — "A mente move a matéria"

A obra visa despertar as mentes portuguesas para transformar a realidade e construir o futuro.

"Ens Gemma"

MENSAGEM → ENS GEMMA — "Ente em Gema" ou "Ovo"

Portugal como um ovo, um embrião de algo maior que está para nascer: o Quinto Império.

Natureza Épico-Lírica da Obra

Uma Obra de Dois Mundos

Para compreender a Mensagem, é preciso distinguir dois géneros fundamentais que Fernando Pessoa funde numa obra única e singular.

Poesia Épica Poesia Lírica
Narra feitos heroicos e grandiosos Expressa emoções e sentimentos
Foca-se na História e no coletivo Foca-se no mundo interior do poeta
Usa a 3.ª pessoa (ele, eles) Usa a 1.ª pessoa (eu)
Tom objetivo e grandioso Tom subjetivo e intimista

Mensagem: Onde o Épico Encontra o Lírico

Discurso Épico

  • Exalta os heróis e a História de Portugal
  • Narra feitos históricos grandiosos
  • Mitifica o passado coletivo

Discurso Lírico

  • Expressa saudade, esperança e angústia
  • Usa a 1.ª pessoa e tom confessional
  • Transforma heróis em símbolos da alma
"A poesia da Mensagem é uma poesia épica sui generis, melhor diríamos epo-lírica" — Jacinto do Prado Coelho

Mensagem vs. Os Lusíadas

O Diálogo entre Duas Epopeias

Análise Estrutural das Epopeias

Aspeto Os Lusíadas (1572) Mensagem (1934)
Autor Luís de Camões Fernando Pessoa
Foco Central A viagem de Vasco da Gama e a glória do Império Físico A mitificação da História e o Império Espiritual
Estrutura 10 Cantos em oitava rima (8816 versos) 44 Poemas curtos e fragmentados
Partes Proposição, Invocação, Dedicatória e Narração Brasão (Passado), Mar Português (Ação), O Encoberto (Futuro)
Estilo Clássico e Renascentista Modernista e Profético

O que as Une

  • Ambas são obras de exaltação patriótica
  • Revisitam a História de Portugal e os seus heróis
  • Partilham uma visão messiânica do destino português
  • Possuem uma estrutura rigorosamente planeada
  • Celebram a superação dos limites humanos

O que as Separa

Aspeto Os Lusíadas Mensagem
Heroísmo Ativo (Ação, Conquista) Interior (Sonho, Visão)
Tom Grandiloquente, Celebratório Nostálgico e Profético
Estrutura Narrativa Contínua Fragmentada
Foco Celebra glória já alcançada Anseia por glória futura
Estilo Linguagem Épica Clássica Linguagem Simbólica

O Quinto Império

A Profecia de Portugal

O Que é o Quinto Império?

É uma profecia sobre o destino de Portugal. Não é um império de conquista territorial, mas um futuro império espiritual e cultural que trará paz e conhecimento ao mundo.

1 Grécia Império da Cultura e Razão
2 Roma Império da Lei e Organização
3 Cristandade Império da Fé Religiosa
4 Europa Império da Ciência e Cultura Laica
5 Portugal Império Espiritual, Cultural e Universal

A Profecia dos Cinco Impérios

Origem Bíblica

Baseada no Livro de Daniel (Antigo Testamento). O profeta interpreta o sonho do rei Nabucodonosor sobre uma estátua feita de diferentes materiais, representando quatro impérios sucessivos:

  • Cabeça de Ouro (Babilónia)
  • Peito de Prata (Pérsia)
  • Ventre de Bronze (Grécia)
  • Pernas de Ferro (Roma)

Uma pedra destrói a estátua e torna-se uma montanha que enche a Terra: o Quinto Império, eterno e divino.

Padre António Vieira

No século XVII, o Padre António Vieira adaptou esta profecia à realidade portuguesa na sua obra História do Futuro.

Vieira acreditava que Portugal estava destinado a ser esse Quinto Império. Não seria apenas um domínio político, mas um império espiritual que levaria a fé cristã a todo o mundo, inaugurando uma era de paz e união universal sob a liderança portuguesa.

Um Império do Espírito, Não da Espada

"O Quinto Império não é de ouro nem de pedra, mas de luz e entendimento"

Liderança Cultural

Não é um domínio territorial ou militar

União Universal

Missão de unir todas as culturas e saberes

A "Verdade"

O ideal pelo qual D. Sebastião morreu

Destino a Cumprir

Portugal na vanguarda de um novo mundo

Análise dos Poemas do Grupo II

Secção: Os Castelos

D. João o Primeiro

O Mestre de Avis (1357-1433)

Contexto Histórico

  • Nascimento e Origem: Nasceu em 1357, filho ilegítimo do rei D. Pedro I e de Teresa Lourenço. Apesar da sua ilegitimidade, recebeu uma educação régia e foi nomeado Mestre da Ordem de Avis em 1364.
  • A Crise de 1383-1385: Quando o rei D. Fernando morreu sem herdeiros diretos, o trono foi disputado. D. João liderou a resistência contra as pretensões de Castela, que visava anexar Portugal. A vitória na Batalha de Aljubarrota (1385) selou a independência da nação.
  • Fundador da Dinastia de Avis: Coroado rei em 1385, iniciou a segunda dinastia de Portugal, que duraria até 1580. Esta dinastia foi responsável pela Era dos Descobrimentos e pela expansão marítima portuguesa.
  • Legado: Conhecido como "O de Boa Memória", é celebrado como o salvador de Portugal. Os seus filhos, a "Ínclita Geração", tornaram-se figuras notáveis da história portuguesa.

O Poema

O homem e a hora são um só

Quando Deus faz e a história é feita.

O mais é carne, cujo pó

A terra espreita.


Mestre, sem o saber, do Templo

Que Portugal foi feito ser,

Que houveste a glória e deste o exemplo

De o defender!

Análise: O Homem e a Hora

Providencialismo

D. João I é apresentado como o escolhido por Deus. A sua ação não é apenas humana, mas divina. Ele surge no momento exato em que Portugal precisava de ser salvo.

O Mestre do Templo

Pessoa refere-se a Portugal como um "Templo" sagrado. D. João I, ao defender a independência, tornou-se o guardião desse templo.

Matéria vs. Espírito

O poema contrasta o corpo físico ("carne", "pó") que morre, com a obra histórica e espiritual que permanece eternamente.

Simbologia

Ele representa a Força Defensiva e a consolidação da identidade nacional.

D. Filipa de Lencastre

Rainha de Portugal (1359-1415)

Contexto Histórico

  • Nascimento e Origem: Nasceu em 1359 em Leicester, Inglaterra, filha de John of Gaunt, Duque de Lencastre.
  • Casamento Estratégico: Casou com D. João I em 1387, selando a Aliança Luso-Britânica, a mais antiga aliança diplomática do mundo.
  • Rainha de Portugal (1387-1415): Como rainha, exerceu grande influência na corte. Era culta, devota e introduziu novos hábitos culturais e educacionais.
  • Mãe da Ínclita Geração: Teve vários filhos notáveis: D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique (o Navegador), D. Fernando, entre outros.

O Poema

Que enigma havia em teu seio

Que só génios concebia?

Que arcanjo teus sonhos veio

Velar, maternos, um dia?


Volve a nós o teu rosto sério,

Princesa do Santo Gral,

Humano ventre do Império,

Madrinha de Portugal!

Análise: O Ventre do Império

O Enigma

O poeta questiona a origem da genialidade dos seus filhos. O "enigma" sugere um evento sobrenatural ou divinamente inspirado.

Princesa do Santo Gral

Esta metáfora eleva D. Filipa a um estatuto sagrado, ligando Portugal à tradição mística da cavalaria.

Humano Ventre do Império

Ela não gerou apenas filhos, gerou o próprio Império. O seu ventre foi o ponto de partida para a expansão de Portugal.

Madrinha de Portugal

Mais do que mãe, ela é a "madrinha", a protetora espiritual que guiou a nação.

D. Tareja

Condessa de Portugal (c. 1080-1130)

Contexto Histórico

  • Nascimento e Origem: Teresa de Leão nasceu por volta de 1080. Era filha ilegítima de Afonso VI de Leão e Castela.
  • Casamento e Governo: Casou com o Conde D. Henrique de Borgonha, a quem foi dado o Condado Portucalense como dote.
  • Mãe de Afonso Henriques: Gerou o futuro D. Afonso Henriques, que se tornaria o primeiro rei de Portugal.
  • Legado: Morreu em 1130. É a figura matricial de Portugal, a "mãe de reis".

O Poema

As nações todas são mistérios.

Cada uma é todo o mundo a sós.

Ó mãe de reis e avó de impérios,

Vela por nós!


Teu seio augusto amamentou

Com bruta e natural certeza

O que, imprevisto, Deus fadou.

Por ele reza!


Dê tua prece outro destino

A quem a Deus o seu deu!

O homem que foi o teu menino

Envelheceu.


Mas todo vivo é eterno infante

Onde estás e não há o dia.

No antigo seio, vigilante,

De novo o cria!

Análise: O Apelo ao Renascimento

Mãe de Reis

D. Tareja é invocada como a "mãe de reis e avó de impérios". Ela é a origem biológica e política da nação portuguesa.

A Decadência

"O homem que foi o teu menino / Envelheceu" — Portugal perdeu o vigor da juventude e entrou em decadência.

Oração

O poema é uma prece. O sujeito poético pede à mãe fundadora que interceda por Portugal junto de Deus.

Renascimento

"De novo o cria!" — é o desejo de um novo começo, a esperança de que Portugal possa renascer.

A Mensagem para Portugal

O Passado

Não é um lugar para repouso ou saudosismo estéril. É a fonte de inspiração e a prova de que somos capazes de grandeza.

O Presente

Marcado pelo "nevoeiro", pela apatia e pela decadência. O desafio é despertar desta letargia e reencontrar a identidade.

O Futuro

O destino é o Quinto Império. Não pela força das armas, mas pela liderança cultural, espiritual e civilizacional.

"É A HORA!"

O apelo final de Pessoa para que Portugal cumpra o seu destino.

Curiosidades sobre Fernando Pessoa

Factos interessantes sobre o poeta

📅

Nome de Santo

Nasceu a 13 de junho de 1888, dia de Santo António. O nome Fernando foi uma homenagem ao santo (Fernando de Bulhões).

✒️

Poeta desde os 7 anos

Escreveu o primeiro poema dedicado à mãe em 1895, com apenas 7 anos de idade.

📚

Devorador de livros

Registou nos diários a decisão de ler 2 livros por dia: um de literatura e outro de filosofia.

🌍

Viveu na África do Sul

Entre os 7 e 17 anos viveu em Durban, onde foi alfabetizado em inglês.

📝

27 mil papéis

Guardou toda a produção num baú — equivalente a mais de 60 livros de 400 páginas!

📖

Só 4 livros em vida

Publicou apenas 4 livros, sendo "Mensagem" (1934) o único em português.

🎭

+100 heterónimos

Criou mais de 100 personalidades fictícias completas, com profissão, signo e biografia.

Astrólogo

Era também tradutor, jornalista, publicitário e astrólogo — criou mapas astrais para os heterónimos!

💬

Últimas palavras

"I know not what tomorrow will bring" — escritas em inglês, um dia antes de morrer.

Vídeo do Projeto

Em breve disponível

Fontes Consultadas